22/03/2010

tentativas

queria saber o que perguntar, do alto do tamborete meio bambo, meia incerta, queria ter migalhas. algo que gerasse encontro – comunhão? apenas sorriu, absurda, diante dela mesmo – num é isso que é a família: você alguns anos depois? ou antes? - - para que lado ia essa máquina do tempo cruel? sussurrou: ambos – e todos os outros.
medo de fixar o olhar, ultrapassar, invadir, fantasmar, ressentir. ou só não queria encarar o que cada resposta espelharia dela, dos anos de indiferença quase afetuosa: “bençavó!”, sem sentido. e ainda: as mitocondrias, parte daquilo, lá bem dentro, e na pele, pelo menos uma parte – como se existisse por partes ancestralmente.
quanta bobagem! e atirou:

- Vó, quero que a senhora me conte qual é a primeira lembraça que tem. Pode ser?
- Sabe que a minha mãe era muito boa. Mas, morreu nova. Eu ainda era nova. Aí me criei meio... Minha filha, é assim? Tá certo? Por que eu não sei... Não lido bem com. Não é pra mim...
- Tá tudo certo, vó. Podia ter continuado. Se puder, lembra de olhar para a câmera, ali aquela lente preta, como eu te falei... Mas, tá tudo certo.
- Ah. É... Tem que olhar ali, né? Ali mesmo? Assim? Você me diz... Porque...
- Assim, vó. Mas não tem importância. Se esquecer de olhar, tudo bem. Continua o que a senhora estava contando da sua mãe... Que ela era boa.
- Era. Dizem, né. Eu mesma num conheci. Mas toda a gente dizia. Me dizia.
- Mas a senhora não conheceu?
- Não... Mas diziam.
- Então, sem ser do que diziam... Do que a senhora lembra? Da sua mãe ou de outra coisa?
- ...
- Da infância? Dos irmãos?
- Tinha a Estrelhinha, Seu Dôca, Conceição e Antenor.
- Mas, como era?
- Era o que? Era nós cinco...
- Sim. Eu entendi, vó... Mas a senhora não lembra como era entre vocês?
- Era irmão. Assim só. Brincava. Mas, tinha de fazer as coisas. E depois foi cada um pro seu lado. Casou. E eu conheci seu avô. E casei também.
- Sei, vó...
- É que a cabeça num funciona mais muito bem, né minha filha. A gente esquece. E depois teve tanta coisa.
- Tá bom. Quer dizer mais alguma coisa?
- Ah, eu não. Tá bom pra você? Eu fiz direitinho? É que cabeça de velho num serve mais para nada...
- Bom... A gente tenta mais outro dia. Que a senhora lembrar mais. Vai pensando... Quando a gente força, às vezes vem.
- É... Pode levantar? Tem esse negócio aqui...
- Peraí que eu tiro... Cuidado! Não pega, não! É sensível. Pode estragar...

Pronto. Tá livre.

1 comentários:

  1. Ai gente, como adoro.
    Me deu uma nostalgia na época de vícios de blogs e vício de vcs.

    Te amo queridona.

    bjoooo

    ResponderExcluir