As cartas pararam de chegar. Um dia. Sem explicações. Ou algum convite de velório ou casamento. Ou. Silêncio. Algumas vezes, por costume, olhou a caixa de correios. Mandou cartas no aniversário e natal. Depois só no aniversário. No outro ano, esqueceu. Depois era depois. Outras cartas começaram a chegar, aos poucos, também sem avisos. Guardou as antigas, na caixa com selos. Nunca as relia. Só as olhava quando tinha de consertar a caixa, colar algum novo destino, fixar um antigo que tentava escapar sorrateiro. Acreditava que a proximidade de tantas cartas diferentes misturava as palavras, os sentimentos e os destinatários. Aquele que antes sorriu ao lembrá-la na ponte passava ao que lembrou do sorriso que apontava: traiçoeira as memórias em palavras.
Queria lhe contar daquela cidade, ainda Paramaribo, mas já outra: domesticada pelos meses, amansada pelas trivialidades. Sabia que não entenderia – ainda mais agora, que já era depois. E, apesar, e ainda, a idéia fixa de escrevê-lo. Ele que nunca foi. Viria no próximo mês – manteve a promessa enquanto a fez: sempre no próximo mês... A distância não era sua culpa, afinal; apenas uma questão de semântica. Ou, talvez, quisesse apenas confessar, quase pedindo permissão, que nunca mais apaixonou-se: não em Paramaribo. Era sua cidade de espera: a cidade do próximo mês, do próximo ano, da próxima vida? Não do próximo amor.
Nem do amor ao próximo. Em Paramaribo, era cada um por si: todos tão espertos, esbeltos, saudáveis, engraçados… Para não engasgar mais com o ressentimento, escreveu-lhe:
Queria lhe contar daquela cidade, ainda Paramaribo, mas já outra: domesticada pelos meses, amansada pelas trivialidades. Sabia que não entenderia – ainda mais agora, que já era depois. E, apesar, e ainda, a idéia fixa de escrevê-lo. Ele que nunca foi. Viria no próximo mês – manteve a promessa enquanto a fez: sempre no próximo mês... A distância não era sua culpa, afinal; apenas uma questão de semântica. Ou, talvez, quisesse apenas confessar, quase pedindo permissão, que nunca mais apaixonou-se: não em Paramaribo. Era sua cidade de espera: a cidade do próximo mês, do próximo ano, da próxima vida? Não do próximo amor.
Nem do amor ao próximo. Em Paramaribo, era cada um por si: todos tão espertos, esbeltos, saudáveis, engraçados… Para não engasgar mais com o ressentimento, escreveu-lhe:
Brincando de sopa de letrinhas...
ResponderExcluirParamaribo é para amar ou para marido?
Para marido ou pára marido (pára de parar, da falecida regra ortografica...)?
Ou ainda, o presente do subjuntivo do verbo parir também é para. Então... que eu para marido, em Paramaribo.
Bom... só tentando brincar com o texto cifrado.
Mas nas cifras do texto, achei que o convite poderia ser tanto para o velório quanto para o casamento. Sendo que o velório era para o que já era dispensável, e o aniversário para comemorar o que nasceu, que vai crescer e desposar...
Achei tocante o texto... e admirável a energia de transformar e seguir. (essa coisa que eu acho tão complicada)
beijo
mas eu nunca fui ao Suriname...
ResponderExcluirtambém não! =)
ResponderExcluirSe Paramaribo existisse, seria bonito assim.
ResponderExcluir(não) fui em paramaribo e lembrei de você.
ResponderExcluirtá lindo, tudo. seu blogs e seus textos.
muitão.
adorei passear em pamaribo. e dividir a textura incomoda e espessa entre sonho e desilusao
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