todomundo sonha com discurso que vaifazer quando ganhar um oscar, eu só penso no meu discurso de demissão: foi uma experiência muito boa trabalhar aqui com vocês, eu aprendi muito e agradeço a oportunidade, mas mas mas - completo com um pouco daquilo que sufoca meu peito e me acorda meio sem motivo às 5 horas da manhã todosdias (só pra voltar a dormir um pouco depois e sair da cama com rosto inchado assustada brigando com o snooze). depois depois, fazer contas do cartão de crédito, das pequenas e grandes dívidas - por fazer e das já feitas, dos planos, dos sonhos, a lista de necessidade urgentes que vendem no supermercado ou no shopping -, separar as moedas para a ônibus, vans, táxis da madrugada, motoboys, metrô, bicicleta e tentar andar a pé para tomar tudo em cerveja milkshake e diamantes. E espero que no futuro, em outra oportunidade, numa nova combinação cósmica, se o personare disser que sim, se se se, possamos trabalhar juntos novamente. agradeço também a todomundo da equipe de produção sempre tão atentos e prestativos aos desejos e angustias sem os quais este trabalho nunca poderia ter sido feito, dedico esse oscar à todos vocês anônimos do meu coração: brigada!
28/08/2011
06/02/2011
documentário
júlio.
porteiro do prédio vizinho.
carioca, fala alto.
conserta bicicleta, carrega compras, desentope pias, coloca persiana, pinta paredes e conta histórias.
também abre o portão.
sempre se comunica com os moradores pela janela dos apartamentos.
em geral, de bom humor, não reclama da vida.
gostou de rever toy story na sessão da tarde: ao infinito e além.
tem seu nome repetido entre 15 e 20 vezes durante um dia.
não vai aos sábados.
é a voz que eu mais escuto.
não tenho muita certeza de sua fisionomia.
de relance, diria: negro, um pouco gordo, alto.
não sei.
mas já consigo saber que horas são quando acordo pelo tom da sua voz.
porteiro do prédio vizinho.
carioca, fala alto.
conserta bicicleta, carrega compras, desentope pias, coloca persiana, pinta paredes e conta histórias.
também abre o portão.
sempre se comunica com os moradores pela janela dos apartamentos.
em geral, de bom humor, não reclama da vida.
gostou de rever toy story na sessão da tarde: ao infinito e além.
tem seu nome repetido entre 15 e 20 vezes durante um dia.
não vai aos sábados.
é a voz que eu mais escuto.
não tenho muita certeza de sua fisionomia.
de relance, diria: negro, um pouco gordo, alto.
não sei.
mas já consigo saber que horas são quando acordo pelo tom da sua voz.
02/11/2010
Dois anos sem dormir em Paramaribo
Das noites em que não se dorme, em que é preciso escrever palavras que brotem psicografadas pela força do hábito – de uma letra que vem depois da outra, sem sentido, só sonoridades, pensa-se no resto da vida, em que.
Noites de futuro: esperar a madrugada; sentir os olhos baixando costas doendo cabeça cansada e o medo dos prazos já tão atrasados, dos sonhos - já tão atrasados -, dos destinos - tão seus que não eram.
Naquela noite em que não poderia dormir, trouxeram notícia de um desertor de Paramaribo:
Noites de futuro: esperar a madrugada; sentir os olhos baixando costas doendo cabeça cansada e o medo dos prazos já tão atrasados, dos sonhos - já tão atrasados -, dos destinos - tão seus que não eram.
Naquela noite em que não poderia dormir, trouxeram notícia de um desertor de Paramaribo:
compromisso
só as pessoas que levam a vida a sério demais...
só as pessoas que levam a vida a sério...
só as pessoas que levam a vida...
só as pessoas que levam...
só as pessoas...
só.
só as pessoas que levam a vida a sério...
só as pessoas que levam a vida...
só as pessoas que levam...
só as pessoas...
só.
10/10/2010
goela abaixo
cadagole amargo,
cadagole dágua salgada,
água caçúcar, docê.
ainda.
os goles de café
pra começar os dias
cada dia, muitos.
ainda.
ainda.
cadagole dágua salgada,
água caçúcar, docê.
ainda.
os goles de café
pra começar os dias
cada dia, muitos.
ainda.
ainda.
16/08/2010
10/08/2010
Segundo ano em Paramaribo
As cartas pararam de chegar. Um dia. Sem explicações. Ou algum convite de velório ou casamento. Ou. Silêncio. Algumas vezes, por costume, olhou a caixa de correios. Mandou cartas no aniversário e natal. Depois só no aniversário. No outro ano, esqueceu. Depois era depois. Outras cartas começaram a chegar, aos poucos, também sem avisos. Guardou as antigas, na caixa com selos. Nunca as relia. Só as olhava quando tinha de consertar a caixa, colar algum novo destino, fixar um antigo que tentava escapar sorrateiro. Acreditava que a proximidade de tantas cartas diferentes misturava as palavras, os sentimentos e os destinatários. Aquele que antes sorriu ao lembrá-la na ponte passava ao que lembrou do sorriso que apontava: traiçoeira as memórias em palavras.
Queria lhe contar daquela cidade, ainda Paramaribo, mas já outra: domesticada pelos meses, amansada pelas trivialidades. Sabia que não entenderia – ainda mais agora, que já era depois. E, apesar, e ainda, a idéia fixa de escrevê-lo. Ele que nunca foi. Viria no próximo mês – manteve a promessa enquanto a fez: sempre no próximo mês... A distância não era sua culpa, afinal; apenas uma questão de semântica. Ou, talvez, quisesse apenas confessar, quase pedindo permissão, que nunca mais apaixonou-se: não em Paramaribo. Era sua cidade de espera: a cidade do próximo mês, do próximo ano, da próxima vida? Não do próximo amor.
Nem do amor ao próximo. Em Paramaribo, era cada um por si: todos tão espertos, esbeltos, saudáveis, engraçados… Para não engasgar mais com o ressentimento, escreveu-lhe:
Queria lhe contar daquela cidade, ainda Paramaribo, mas já outra: domesticada pelos meses, amansada pelas trivialidades. Sabia que não entenderia – ainda mais agora, que já era depois. E, apesar, e ainda, a idéia fixa de escrevê-lo. Ele que nunca foi. Viria no próximo mês – manteve a promessa enquanto a fez: sempre no próximo mês... A distância não era sua culpa, afinal; apenas uma questão de semântica. Ou, talvez, quisesse apenas confessar, quase pedindo permissão, que nunca mais apaixonou-se: não em Paramaribo. Era sua cidade de espera: a cidade do próximo mês, do próximo ano, da próxima vida? Não do próximo amor.
Nem do amor ao próximo. Em Paramaribo, era cada um por si: todos tão espertos, esbeltos, saudáveis, engraçados… Para não engasgar mais com o ressentimento, escreveu-lhe:
Assinar:
Postagens (Atom)