03/02/2010

marcha fúnebre

ouço passos pela casa
e tenho fantasias absurdas.
desmonto quebra-cabeças infinitos
- peças faltando!
conversa de corredor.
entre. cortada.

voz de comando:
pausas e entonações inexplicáveis:
co-on-trro-laaa-das
meticulasamente.
só arrogância?
complexo-de-grace
e a coisa toda?

parênteses para:
lista interminável das
ladainhas e reclamações
de sempre sobre os homens...
continua...
continua...

eu num disse nada.
sejamos menos reativas, né?
mesmo que ele tenha roubado a minha cama.
mesmo que ele não tenha...

refrão:
mais mimimi.
mimimi.
mimimi.
mimimi.

comprar a briga e ver...
talvez, só ver?
sentir a energia se dissipar.
virar outra coisa.
sorriso no canto da boca,
involuntário?!

continua...

repete refrão.

06/09/2009

planos

um monstrinho sujo. é preciso enfiar a mão na merda e a merda na boca – depois sorrir. tirar silêncios. elipses. e os outros truques. ir onde dói de pensar – doerá dobrado descrito – triplicado lido. publicado. escatologias.porque é política, não é pessoal. nem familiar. ainda que. tomar um ônibus sem olhar para a janela e se despedir. egoísmo cego. narrar cortando carne. sem recompensas.

25

Um roteiro em aberto.
Faz. Desfaz.
Tantas vezes. E ainda.

Imagens que não se montam:
não querem ser palavras.
Alucinação.

E outros textos.
Tudo se sobrepondo.
Aos montes. Aos gritos. Que nem.

Vai ver. Num deveria ser nada disso.
Só conversas imaginárias,
sobre chá de taruíra.

E a vida em Marte.
Há?

08/08/2009

exílio da tela branca

assim entre a inércia de uma ilha e o desespero de todo um continente. como se só fosse possível estancar, esperar, congelar e fora isso toda a ação derretesse – ou sou eu quem derrete em? futuros imaginários e possíveis – e isso aqui, que é outra coisa.

o problema é o esquecimento. faço notas mentais para lembrar-me. e no fim restam apenas listas descritivas intermináveis sobre detalhes simportância - como sentar nos fundos do bar pra descobrir que é só o final da garagem da casa em que os donos vivem. ou ver o freezer abrindo e o pacote de batatas fritas congeladas que logo estará na mesa. ou a melancolia diante de uma terça sensperança, que ainda terminará com ele na minha cama. ainda que. da perfeição ao desestre em 24 horas. em outras situações, é preciso bem menos.

menos de duas horas, algumas palavras e umas cervejas: e já se está no meio da-porra-toda-de-novo - como se algumas amizades tivessem a capacidade da mágoa atemporal. só desesperincompreensão. sem saber muito o porquê disso tudo mesmo. se o que dói é a distância, a diferença ou só o rancor. tudo tão brega e semlução. tomates jogados levianamente. só deixar para lá e mudar de assunto noutro dia, como sempre se muda de assunto. falando em rodeios. falando falando falando. tão sem saída para as próprias armadilhas paranóicas. um chute, uma alfinetada e foi-se. next!

lembrou da história de uma amiga e seu pai: após alguns anos de água morna, não conversavam mais, apesar de compartilharem uma pequena ilha deserta. seguiam esbarrando-se constrangidos e com sorrisos amarelos ou olhares baixos. por fim, tinham inventado os almoços. um pouco formais e rápidos. brócolis, feijão, arroz e depois só marcar mais um 'x' na lista das tarefas a fazer. sempre serviam bife de figado acebolado. ela detestava. comia sem dizer.

talvez seja só isso: ir da ilha ao continente, entre primeira e terceira pessoa. e todo o resto que se varre atrozmente pra debaixo do tapete mudando de assunto e sorrindomarelo, enquanto engole-se a seco outro pedaço da própria carne manejando os talhares delicadamente, como manda a etiqueta.

02/08/2009

paredes

...seria preciso escrever sobre tudo o que acontece nelas assim sem ninguém ver por mais que eu passe horas e horas e horas as vigiando obsessivamente ainda assim deve ser num piscar num virar de olhos sonhador na abstração do horizonte e pronto eis a magia e eu não vi não vi mas acredito ou talvez só queira muito e acredito que acredito ou que poderei um dia que será possível não ver mas apenas acreditar

dizem que um corpo no mundo com fé ou crença é política só que eu não sei direito a diferença entre mas existe ainda mais fortemente nas paredes e na sua magia invisível para mim parece mais com cinema um cinema puro ou a vida mas sem todas aquelas outras tantas pessoas para atrapalhar as projeções e os devaneios que insistem escorregadios em se sobrepor uns aos outros ou apenas sobre mim e as paredes...

20/07/2009

e todo dia não é o seguinte?

se eu fosse fazer um filme sobre meus amigos numa viagem de final de semana...
... só teria uma cena: plano-sequência:
no começo, tela preta e sons: passos, panelas, cochichos, dois ou três bons dias.
a primeira imagem seria feita com a câmera solta no chão de pés, colchões, bolsas e malas.
a câmera ficaria assim, esquecida, por minutos, captando muito pouco de uma movimentação da cozinha - de longe, esquecida em um quarto ou na sala.
aos poucos, lentamente, deslocaria-se pelo quarto, a sala, as pessoas ainda dormindo, a fila do banheiro, a movimentação cada vez mais intensa na cozinha e a calma de pessoas tomando café da manhã no quintal. talvez, torcer por um sorriso direto e sincero.
e, displicentemente, esquecer a câmera em cima da mesa posta entre garrafas, pães, geleias...

(mas, não. esse não é o meu filme)

14/07/2009

segunda-feira

fico em silêncio. falam de marcas de guitarra, bandas de heavy metal e amigos que não conheço. às vezes, lembro de sorrir; na maioria, só olho para os meus sapatos e ouço. como se fosse um grande segredo. como se os vários meses de sorrisos calmos e silêncio fossem abrir algum portal do universo - com a diferença de que eu sei que não irão. e, ainda assim, a possibilidade...

gosto muito de como ele mente. quase uma criança. só que as crianças são mais cruéis, como se sabe. ele só solta frases contraditórias sobre ex-namoradas ou flats. e que importância? talvez, a magia e o problema estejam aí: não tem a menor importância.

... e, ainda assim, espero que ligue.

só interrompo quando ele diz que guitarra é igual mulher. oi? ainda estou aqui, lembra! o amigo pede o isqueiro e dobra a esquina - tinha ensaio. nem fomos apresentados. e também não tem importância. guitarra igual a mulher? sério? longa explicação... e a magia e o problema é que eu perco o interesse no meio.

gosto quando me abraça. embora... devesse ser mais forte. ou só mais seguro. e, no fim, cada milímetro de poder é minuciosamente disputado. mesmo que a magia e o...

pelo menos, ele também se entedia: ainda bem que você mora em campinas! finjo uma certa ofensa: você quer que eu vá embora? já cansou? outra explicação longa demais. dessa vez, perto demais da verdade para ter magia.

gosto de ser outra pessoa. dos sorrisos despretensiosos. do calar quando a vontade era dizer por dizer. do abraçar ou beijar para criar laços onde eles não se sustentam.

ele pede autorização para fumar um cigarro. claro! - claro, claro, claro: mas, ele sempre pergunta. rimos. que fazer? vemos um casal de amigos dele que se insultam histericamente no ponto de ônibus. saem correndo para que ela não perca a viagem. reataram agora, explica. dessa vez, ele me apresenta. sorrio. olho para os meus pés.

ainda bem que eu moro em campinas!
e ele me abraça.