28/08/2011

manhã de sábado em paramaribo

todomundo sonha com discurso que vaifazer quando ganhar um oscar, eu só penso no meu discurso de demissão: foi uma experiência muito boa trabalhar aqui com vocês, eu aprendi muito e agradeço a oportunidade, mas mas mas - completo com um pouco daquilo que sufoca meu peito e me acorda meio sem motivo às 5 horas da manhã todosdias (só pra voltar a dormir um pouco depois e sair da cama com rosto inchado assustada brigando com o snooze). depois depois, fazer contas do cartão de crédito, das pequenas e grandes dívidas - por fazer e das já feitas, dos planos, dos sonhos, a lista de necessidade urgentes que vendem no supermercado ou no shopping -, separar as moedas para a ônibus, vans, táxis da madrugada, motoboys, metrô, bicicleta e tentar andar a pé para tomar tudo em cerveja milkshake e diamantes. E espero que no futuro, em outra oportunidade, numa nova combinação cósmica, se o personare disser que sim, se se se, possamos trabalhar juntos novamente. agradeço também a todomundo da equipe de produção sempre tão atentos e prestativos aos desejos e angustias sem os quais este trabalho nunca poderia ter sido feito, dedico esse oscar à todos vocês anônimos do meu coração: brigada!

06/02/2011

documentário

júlio.
porteiro do prédio vizinho.
carioca, fala alto.
conserta bicicleta, carrega compras, desentope pias, coloca persiana, pinta paredes e conta histórias.
também abre o portão.
sempre se comunica com os moradores pela janela dos apartamentos.
em geral, de bom humor, não reclama da vida.
gostou de rever toy story na sessão da tarde: ao infinito e além.
tem seu nome repetido entre 15 e 20 vezes durante um dia.
não vai aos sábados.
é a voz que eu mais escuto.
não tenho muita certeza de sua fisionomia.
de relance, diria: negro, um pouco gordo, alto.
não sei.
mas já consigo saber que horas são quando acordo pelo tom da sua voz.

02/11/2010

Dois anos sem dormir em Paramaribo

Das noites em que não se dorme, em que é preciso escrever palavras que brotem psicografadas pela força do hábito – de uma letra que vem depois da outra, sem sentido, só sonoridades, pensa-se no resto da vida, em que.

Noites de futuro: esperar a madrugada; sentir os olhos baixando costas doendo cabeça cansada e o medo dos prazos já tão atrasados, dos sonhos - já tão atrasados -, dos destinos - tão seus que não eram.

Naquela noite em que não poderia dormir, trouxeram notícia de um desertor de Paramaribo:

compromisso

só as pessoas que levam a vida a sério demais...
só as pessoas que levam a vida a sério...
só as pessoas que levam a vida...
só as pessoas que levam...
só as pessoas...
só.

10/10/2010

goela abaixo

cadagole amargo,
cadagole dágua salgada,
água caçúcar, docê.
ainda.

os goles de café
pra começar os dias
cada dia, muitos.
ainda.

ainda.

16/08/2010






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10/08/2010

Segundo ano em Paramaribo

As cartas pararam de chegar. Um dia. Sem explicações. Ou algum convite de velório ou casamento. Ou. Silêncio. Algumas vezes, por costume, olhou a caixa de correios. Mandou cartas no aniversário e natal. Depois só no aniversário. No outro ano, esqueceu. Depois era depois. Outras cartas começaram a chegar, aos poucos, também sem avisos. Guardou as antigas, na caixa com selos. Nunca as relia. Só as olhava quando tinha de consertar a caixa, colar algum novo destino, fixar um antigo que tentava escapar sorrateiro. Acreditava que a proximidade de tantas cartas diferentes misturava as palavras, os sentimentos e os destinatários. Aquele que antes sorriu ao lembrá-la na ponte passava ao que lembrou do sorriso que apontava: traiçoeira as memórias em palavras.

Queria lhe contar daquela cidade, ainda Paramaribo, mas já outra: domesticada pelos meses, amansada pelas trivialidades. Sabia que não entenderia – ainda mais agora, que já era depois. E, apesar, e ainda, a idéia fixa de escrevê-lo. Ele que nunca foi. Viria no próximo mês – manteve a promessa enquanto a fez: sempre no próximo mês... A distância não era sua culpa, afinal; apenas uma questão de semântica. Ou, talvez, quisesse apenas confessar, quase pedindo permissão, que nunca mais apaixonou-se: não em Paramaribo. Era sua cidade de espera: a cidade do próximo mês, do próximo ano, da próxima vida? Não do próximo amor.

Nem do amor ao próximo. Em Paramaribo, era cada um por si: todos tão espertos, esbeltos, saudáveis, engraçados… Para não engasgar mais com o ressentimento, escreveu-lhe: